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Sustentabilidade não é só reciclagem, vai muito além.

Sustentabilidade não é só reciclagem, vai muito além.

Desde que o mundo é mundo e o bicho homem chegou na Terra, nós produzimos "lixo" e desde que o termo "sustentabilidade" começou a ser falado em conversas informais, muitas pessoas associam o conceito à reciclagem.

Aconteceu comigo ontem, ao conversar com uma médica homeopata e acontece o tempo todo, desde 2005, quando comecei a trabalhar com o tema.

Sustentabilidade inclui reciclagem, mas não se limita a isso, vai além, eu diria, alguns milhões de quilômetros além. O professor Ricardo Abramovay,  cientista político e sociólogo nos lembra que sustentabilidade é um valor humano, como respeito, empatia e altruísmo e tantos outros valores capazes de guiar todas as nossas escolhas, ações condutas e relações.

Para adotar a sustentabilidade como um valor que guie nossos passos, precisamos exercitar:

  1. Visão sistêmica de longo prazo - parae  compreender que vivemos em um sistema fechado - planeta Terra, onde tudo está conectado e é interdependente e que para além de nossa existência todas as demais formas de vida e o próprio planeta continuarão existindo;
  2. Respeito - consideração, apreço, afeto, tolerância - esta palavra poderia resumir o conceito que entendo por sustentabilidade e poderia validar cada prática nossa como "sustentável" ou não;
  3. Regeneração - já não basta preservarmos o que resta do ambiente ao nosso redor, a interferência humana no planeta já deixou marcas tão profundas que estamos vivendo a era do Antropoceno, como explica o professor José Eli da Veiga em suas colunas no Jornal da USP, portanto é preciso agir para regenerar o que foi destruído e isso exige ações imediatas, individuais e coletivas.

O teólogo, filósofo, escritor e professor Leonardo Boff tem uma boa definição de sustentabilidade que serve tanto a leigos quanto a especialistas:
“… toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida, a sociedade e a vida humana, visando sua continuidade a ainda atender as necessidades da geração presente e das futuras, de tal forma que os bens e serviços naturais sejam mantidos e enriquecidos em sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução.”
A diferença desta definição para outra, muito compartilhada, do relatório Brundtland , é que ela traz a imprescindível necessidade da regeneração e da coevolução.
Há cerca de 3.700 anos, as cidades sumérias foram abandonadas, quando os sistemas humanos de irrigação de terras tornaram os terrenos alagadiços e salinizados.
Cerca de 2.400 anos atrás Platão já afirmava que havia desmatamento e erosão do solo nas colinas da Ática, em razão de EXCESSO DE PASTAGEM E DO CORTE DE ÁRVORES para lenha.

Ou seja, sustentabilidade não é uma necessidade moderna, inclui não só o chamado meio ambiente, do qual somos parte, mas todas as demais espécies. Diz respeito também a como estamos organizados socialmente e como vamos manter as condições em equilíbrio para coexistirmos todos no planeta Terra, e como podemos prosperar. Não é pouca coisa e por isso as ambições foram organizadas pela ONU em 17 Objetivos (ODS - Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) macro, interdependentes de mesma relevância e urgência. Parece amplo, inatingível, mas a forma como estes objetivos foram elaborados permite a cada um de nós adota-los em nossas ações individuais, em organizações de todos os portes, em cidades, estados e países.

Ou seja, nem tudo está perdido, e a teoria da generosidade (Rogerio Ruschel) nos traz esperança ao expor que o ser humano não é apenas individualista e egoísta, mas um ser social, que coloca os interesses dos outros no mesmo nível de seus próprios interesses. O ser humano possui um espírito de cooperação e de solidariedade, de modo que ele não volta seus esforços apenas para dar o peixe ao faminto, ou para ensinar a pescar, como também para preservar o rio, a fim de que todos possam exercer a pesca e se alimentar.
Então, que possamos manter a esperança de que sustentabilidade seja entendido e praticado como um valor, da mesma forma que o amor, com todas as suas variações e intensidades. Um sentimento-conceito, que pode ser traduzido em práticas, que une toda a humanidade, independente de nossas individualidades, culturas, idade e tudo o mais que nos torna únicos. O amor nos iguala, nos agrega, nos transcende, que seja assim com a sustentabilidade.

Podemos começar reciclando, passar a reutilizar e chegar ao recusar, por exemplo, só o que não podemos é nos limitar a algo que é apenas a primeiro passo dessa longa jornada pela preservação da nossa espécie.

Rede Sustentaoquê?
Daniela Delfini de Campos
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Entusiasta pela vida no planeta Terra. Conheci os conceitos de sustentabilidade em 2005, uma grande organização que virou case em Harvard. A partir de 2014 atuei como consultora e pesquisadora e crio conteúdo desde 2016 no Instagram @sustentaoque.

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