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Resíduos da Construção Civil - conversa com o Coletivo da Rede.

Resíduos da Construção Civil - conversa com o Coletivo da Rede.

Na semana passada, em meio à campanha para as eleições municipais, fui convidada pelo Coletivo da Rede, uma chapa coletiva filiada ao partido Rede Sustentabilidade, para conversar sobre os resíduos da construção civil. Este é um tema de extrema relevância, sobretudo para a gestão de municípios e o coletivo tem promovido diversas conversas em seu canal do Youtube.

De acordo com o Planares 2020 (Plano Nacional de Resíduos Sólidos) cuja consulta pública se encerra em 16 de novembro de 2020, cada habitante produz POR DIA, cerca de 585 kg ou MEIA TONELADA de resíduos oriundos da construção civil. Estes são resíduos DIFÍCEIS de se degradar ou REJEITOS (não degradáveis) e um dos maiores motivos do esgotamento de aterros sanitários.

Segundo a ABRECON, 50% desse volume é gerado no sudeste do país, totalizando 84 milhões m³ anuais. Ainda de acordo com o Planares, o país possui 1.000 unidades de triagem e 93 de reciclagem que produziram 431 mil m³ de agregados reciclados por mês. Será que é um número aceitável para uma indústria que responde por 5,2% do PIB e 8,5% do total de pessoas empregadas no país?

Jundiaí parece ter um exemplo a ser estudado e replicado, uma notícia publicada em 2019 informa que o município atingiu 100% de índice de reciclagem desse tipo resíduo em 2019 (15 mil toneladas por mês).

A maior parte da reciclagem dos resíduos da construção civil tem como destino a fabricação de cimento. De acordo com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), no Brasil existem 24 grupos cimenteiros atuantes, com 100 fábricas de cimento e capacidade instalada de produção total de 102Mton/ano, mas a imagem abaixo mostra que o potencial destas fábricas está extremamente subutilizado (45%), refletindo os baixos percentuais de reciclagem do material no país.

Ainda que estejamos falando de uma indústria das mais relevantes em termos econômicos e financeiros do país, historicamente metade da coleta é realizada pelas prefeituras, a outra metade por empresas especializadas e autônomos, que representam um risco a mais para a operação. E aqui vale repensar quem está pagando pelas externalidades, ou impactos negativos da atividade desta indústria. Tudo indica que metade da conta dos resíduos está sendo dividida pelos cidadãos, daí mais um motivo para discutirmos o tema com os gestores municipais, afinal a proposta do plano nacional (Planares 2020) é bem pouco ousada diante da capacidade das indústrias e da necessidade planetária (leia-se emergência climática).

Como parâmetros mercadológicos reuni algumas certificações que podem guiar tanto construtores quanto pessoas que buscam imóveis construídos com mais responsabilidade socioambiental:

  • Certificação LEED;
  • Referencial Casa GBC Brasil, desenvolvido pelo Comitê Técnico do Green Building Council (GBC), específico para residências e condomínios;
  • Processo AQUA-HQE, certificação internacional de construção sustentável desenvolvido a partir da certificação francesa Démarche HQE (Haute Qualité Environnementale);
  • Selo Casa Azul, uma classificação socioambiental dos projetos habitacionais financiados pela Caixa;
  • Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), referencial do Sistema de Avaliação de Conformidade de Empresas de Serviços e Obras da Construção Civil (SIAC), que se aplica a toda empresa construtora que pretenda melhorar sua eficácia técnica e econômica, por meio da implementação de um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ);
  • BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method), um dos métodos mais antigos de se avaliar, classificar e certificar sustentabilidade em edifícios.

Ainda estamos engatinhando em termos de políticas para as novas economias, como podemos notar pela ausência de direcionamento à economia circular nas diretrizes para a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos no que tange as estes resíduos específicos (proposta Planares 2020): 

4.4. DIRETRIZES E ESTRATÉGIAS PARA GESTÃO DOS RESÍDUOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL (RCC) 

  • Eliminar as áreas de disposição final inadequada de RCC 
  • Criar linhas de financiamento específicas para o setor público e privado para a recuperação de áreas degradadas pela disposição inadequada de RCC. 
  • Disponibilizar, por meio do MTR/SINIR, relatório específico sobre a movimentação de RCC, com vistas ao cumprimento do arcabouço legal e normativo. 
  • Desenvolver capacitação técnica para a gestão adequada e beneficiamento do RCC.
    Orientar os setores público e privado na construção de áreas de destinação final adequada de RCC. 
  • Aumentar a reciclagem de RCC 
  • Incentivar o uso de RCC ou de material reciclado a partir desses resíduos em obras públicas e privadas financiadas com recursos públicos. 
  • Criar instrumentos econômicos e disponibilizar linhas de financiamento para aquisição de equipamentos e sistemas voltados à redução da geração e ao aproveitamento de RCC. 
  • Fomentar a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico para ampliação dos processos de reutilização e reciclagem de RCC. 

Segundo o relatório The Circularity Gap 2019, o setor da construção civil é responsável por quase 50% do uso de materiais (42,4 bilhões de toneladas) globalmente. Além disso, gera cerca de 20% das emissões de carbono.

Cabe então ao setor privado e sociedade civil uma maior exigência seja em termos de gestão de resíduos e planejamento de obras, quanto em termos de projetos de novos edifícios oferecidos incansavelmente à sociedade.

E para inspirar novas práticas alinhadas aos conceitos da sustentabilidade e economia circular, cito alguns exemplos:

  1. Construção modular através de tecnologias como steelframe, woodframe e impressoras 3D - exemplo da aplicação de critérios da economia circular na construção civil, neste tipo de construção as estruturas são montadas por meio de encaixes e parafusos, sem o uso de cimento ou cola e com a vantagem adicional de facilitar intervenções para reformas. De acordo com o artigo da Ideia Circular, são exemplos do método modular de construção a Arena do Futuro e o Estádio Aquático Olímpico, construções erguidas para as Olimpíadas do Rio de Janeiro;
  2. Construção por impressão 3D - na Europa a tecnologia já se mostrou viável com a maior impressora do continente tendo construído pela 1ª vez uma casa de 2 andares em um tempo recorde de 3 semanas. Na China, a empresa Winsun é uma das pioneiras na área de impressão 3D para construções em larga escala. Recentemente, ela “imprimiu” um apartamento com cinco cômodos e uma casa de campo de 1.100 metros², além de ter sido responsável pelo desenvolvimento do primeiro escritório feito a partir da tecnologia 3D (que fica em Dubai). A fábrica tem uma impressora 3D com mais de 100 metros de comprimento e utiliza uma mistura de cimento, areia e fibras, das quais até 50% são derivadas de materiais reciclados de demolição. As paredes são produzidas na fábrica e transportadas para a obra, segundo a empresa, o processo diminui de 50 a 70% o tempo de construção, reduz de 50 a 80% o trabalho em si e economiza de 30 a 60% de materiais;
  3. Moladi Building System - sistema no qual moldes plásticos (reciclados) são utilizados para fazer toda a estrutura da construção. As paredes ficam ocas e, após as janelas, as portas e os sistemas de eletricidade e encanação serem instalados, elas são preenchidas com um concreto de secagem rápida. Os responsáveis destacam que profissionais sem experiência na área de construção podem trabalhar em obras realizadas por meio desse sistema, e que o projeto pode ser monitorado apenas por um gerente ou supervisor qualificado;
  4. Robôs inteligentes para demolição - ERO Concrete Recycling Robot foi criado justamente para resolver questões ligadas ao reaproveitamento de materiais em demolições. Utilizando jatos de água de alta pressão, o ERO (abreviação de “erosão”) decompõe o concreto, separa e limpa os diferentes resíduos. Depois, o sistema embala e categoriza os materiais para serem encaminhados para a reciclagem ou reutilização.
  5. Biomimética - Bio Concrete, é um material que possui bactérias que agem na reparação do cimento quando do surgimento de pequenas rachaduras, o que em estruturas de concreto poderia aumentar de tamanho com o tempo, causando problemas de estabilidade e segurança.

De acordo com o último relatório do Fórum Econômico Mundial para inspirar a inovação no Futuro das Construções, o framework a ser adotado está representado no quadro abaixo e abarca desde tecnologias de materiais e ferramentas a políticas setoriais.

A conversa completa está disponível no Youtube do Coletivo da Rede, espero que possa inspirar profissionais do setor e todo o público a exigir mais responsabilidade e sustentabilidade no setor da construção civil.

Rede Sustentaoquê?
Daniela Delfini de Campos
Daniela Delfini de Campos Seguir

Entusiasta pela vida no planeta Terra. Conheci os conceitos de sustentabilidade em 2005, uma grande organização que virou case em Harvard. A partir de 2014 atuei como consultora e pesquisadora e crio conteúdo desde 2016 no Instagram @sustentaoque.

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