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O RECICLADO – ESTAMOS PREPARADES PARA ELE?

O RECICLADO – ESTAMOS PREPARADES PARA ELE?

Não sei se existe alguém que se irrite mais com a quantidade de propaganda no Instagram que eu, mas não é que uma delas foi a inspiração para eu sentar e escrever o que você vai ler agora? Estava eu navegando nessa rede quando me deparo com esta imagem:

Foto: Reprodução/Instagram Melissa Oficial.

Fui ver do que se tratava e, claro, aproveitei para olhar os “arredores”. Li os posts seguintes e anteriores, assim como os comentários das (os) usuárias (os). Encontrei ali uma forma concreta para trazer aprendizado e reflexões sobre a gente comprar a ideia, por bem ou por mal, intencionalmente ou não, de que a reciclagem é uma solução para a questão do “lixo”. 

Para que a gente não se confunda:

Reciclável: passível de reciclagem (importante: isso não implica que será, de fato, reciclado);
Reciclado: proveniente do processo de reciclagem;
Reciclabilidade: nível de facilidade de reciclagem.

O que você viu na foto acima é uma sandália da Melissa 100% reciclada. Ela foi feita a partir de sandálias Melissa “sem condição de uso” (palavras da marca), descartadas pelas (os) donas (os) em pontos de coleta estratégicos oferecidos durante um período. E por que estou trazendo este exemplo específico? Porque, como comentei, ele se apresentou pra mim. Não conheço alguém que trabalhe na Melissa, tampouco interagi com a marca antes de escrever este texto. Minha proposta é que você, a partir do raciocínio construído aqui, possa aplicar para os bens de consumo que são presentes em sua vida, independente de quem os está produzindo. Como a reciclagem pode funcionar de maneiras diferentes de material para material, neste texto vou focar apenas no plástico, combinado? Vamos lá!

Parte 1 – Senso estético

Foto: Reprodução/Instagram Melissa Oficial.

 “Nossa! A sandália está manchada?” – essa foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando me deparei com a foto. Quando li que ela era um produto proveniente da reciclagem, tudo fez sentido. Existem pelo menos 7 tipos de plásticos sendo comercializados, cada qual com suas características; um dos pontos negativos do processo da reciclagem deste material é o produto final ter qualidade diferente da do produto original. Estou usando a palavra “diferente” pois, quando o assunto é estética tudo é relativo, mas o produto reciclado apresenta diferença em características como dureza, resistência, flexibilidade, rigidez, brilho, etc. Segundo Érika Carvalho (Cooperativa YouGreen), “a qualidade do material final está piorando pelas seguintes razões: o produto não é desenhado para ser reciclado e/ou vem misturado com outras coisas”.

 Parte 2 – Modelo de produção

Na economia linear (modelo vigente predominante), a produção segue a seguinte sequência: extração de recursos naturais (matéria-prima) – produção – uso/consumo – descarte (nos aterros sanitários, lixões a céu aberto, nos mares, etc). Como o próprio nome diz, é uma sequência linear, com começo, meio e fim. O que a Melissa se propôs a fazer, na minha leitura, é quebrar a lógica linear e “fechar o ciclo”: a produção começa a utilizar seus próprios produtos como matéria-prima. Então, ao invés da (o) cliente enviar a sandália para o “lixo”, ela devolve para a Melissa. Dê uma olhada na sequência abaixo para ter uma ideia das etapas que compõem esse processo de retorno do item para a indústria e sua reinserção na cadeia produtiva:

Foto: Reprodução/Instagram Melissa Oficial.

Um pequeno esclarecimento antes de seguirmos: “fechar o ciclo” não significa que se esteja praticando a economia circular, tá? Esse conceito de economia leva muitos outros fatores em consideração; esta seria apenas uma “etapa”, digamos assim.

Abrir caminho para a sandália voltar “para casa” não é nada demais, uma vez que viabilizar a logística reversa é obrigação das empresas desde 2010, como prevê a Política Nacional dos Resíduos Sólidos. O que precisamos nos atentar é o seguinte: o plástico tem um número finito de ciclos de reciclagem (uma média de 5; varia de tipo para tipo). Sim. Todo plástico presente no mundo, no final de sua vida, vira “farofa de plástico” (oi, microplasticos!). Então, em algum momento … “fechar o ciclo” e realizar a reciclagem já não é mais possível.

Parte 3 – Ação?

A marca descreve este evento como uma “ação de sustentabilidade”. Para o meu desespero e desespero de qualquer pessoa que trabalhe com este tema de forma séria e responsável, tem crescido o número de marcas com as ditas ações – isoladas – de sustentabilidade. Você tem notado? Como se a gente estivesse em posição de escolher quando agir de forma sustentável. As marcas tem que “implementar a sustentabilidade” na mesma velocidade em que extraem matéria-prima, produzem, distribuem – e não recolhem – seus itens. Precisamos, também, parar de nos nivelarmos por baixo e nos contentarmos com o “ah, mas já é um começo, né?”. Quem polui mais, precisa se esforçar mais. Ou, colocando de outro modo, precisa ser parte da solução pelo menos na mesma medida em que se é parte do problema.

Parte 4 – (Re)Educação

Achei interessante ler os comentários dos posts relacionados. Tinha de tudo: pessoas achando a proposta o máximo, outras reclamando do preço (achavam que a sandália deveria ser mais barata por ser reciclada), outras sugerindo que a clientela deveria ganhar algum tipo de desconto ou bonificação ao levar sua sandália antiga de volta pra marca e, também, pessoas tirando sarro da estética do produto. Essa pequena amostra de opiniões reflete como eu tenho enxergado essa dinâmica da “sustentabilidade aplicada a negócios” nos últimos anos: existem diferentes interesses, diferentes níveis de acesso à informação, diferentes níveis de conscientização; a única coisa em comum é, sem dúvida, a necessidade de nos reeducarmos (enquanto consumidores finais, donas (os) e líderes de empresas, pessoas que atuam diretamente na política e etc) – pelo simples fato de sermos todas e todos cidadãs e cidadãos do mundo. Simples assim. Se eu limpo ou deixo de poluir, o benefício é de todes; se eu sujo, contamino e poluo (independente da justificativa que eu dê pra isso), o prejuízo é de todes (mais pra uns do que para outros, claro; afinal de contas, a concentração de renda e a desigualdade social nunca estiveram tão fortalecidas e, quando a coisa aperta, já sabemos qual parte da população é atingida primeiro, não é?).

E o que eu quis dizer com “estarmos preparades” para os reciclados?

– À medida em que se defende a reciclagem como solução, temos que ver mais e mais produtos reciclados sendo comercializados. Você possui algum item (uso pessoal, de casa, no trabalho) que seja parcial ou inteiramente reciclado?
– Estamos dispostos a ter/fazer uso, cada vez mais, de produtos com a concepção de estética e de facilidade de uso muito diferente (pra não dizer inferior) da qual foi construída até hoje?
– Quando o assunto é sustentabilidade, empresas que – conscientemente ou não – não investem em educação corporativa e na educação de seu público (direta ou indiretamente), estão correndo o risco de “dar um tiro no próprio pé” e/ou serem mal interpretadas? (Minha opinião? Com certeza. No exemplo explorado aqui, basta ir até os posts e ver alguns comentários e as respostas – ou ausência de resposta – da marca).
– E, por último, sabendo que podemos fazer diferente, é justo oferecer esse mundo (o dos reciclados), fruto do nosso modelo de produção e consumo atual, para as gerações que estão vindo?

Minha intenção sempre é provocar para que a gente dê um passo rumo ao mundo em que queremos habitar. O futuro está sendo construído hoje – ele não vai “aparecer magicamente” amanhã.

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Este texto faz parte da sustentabilidade atemporal, a newsletter da Pratique Consciente. Para mais curadoria de conteúdo, provocações e reflexões chegando direto na sua caixa de e-mail, inscreva-se aqui.

Referências:

 

Rede Sustentaoquê?
Nativa Villalta
Nativa Villalta Seguir

Educadora em sustentabilidade para pessoas e negócios, engenheira de produção e fundadora da Pratique Consciente. Atua na criação de consciência e de práticas que fomentam e constroem um sistema produtivo regenerativo e uma economia circular.

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