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Certificações para a moda, será que já chegou a hora?

Certificações para a moda, será que já chegou a hora?

Qual o nível de maturidade da sua empresa em sustentabilidade? Você já tem capacidade financeira para encarar uma certificação? Que impactos deseja obter a partir desta "auditoria e verificação por uma terceira parte"?

Estas são algumas questões que convidei empreendedores e empreendedoras a se fazer em uma live que fiz a convite de Julia Codogno, criadora de conteúdo no Instagram, docente em temas de consumo, mercado e gestão estratégica relacionados a moda e beleza e idealizadora do Guia de Marcas + Conscientes, que possui uma análise criteriosa sobre mais de 200 marcas em 11 setores, de vestuário a market places.

Inspirada nestas questões primordiais sobre gestão, estratégia e criação de valor, iniciei uma série de posts com a tag #mentoriaparaempresas, disponíveis na nova guia (recurso do Instagram que nos permite salvar itens por tema). Muitas vezes, micro e pequenas empresas acreditam precisar de um selo ou certificação externa para validar suas práticas, quando, a meu ver, podem construir um valor genuíno e relevante e se comunicar de forma clara, simples e objetiva diretamente com seus públicos de interesse (stakeholders) até que os selos ou certificações sejam viáveis e relevantes para seu negócio.

E para começar sugeri duas ferramentas gratuitas e de linguagem acessível:

  1. Indicadores Ethos-Sebrae para Micro e Pequenas Empresas - um guia já integrado à agenda 2030 da ONU (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), que orienta micro e pequenas empresas a realizar um diagnóstico e planejar sua estratégia guiados por perguntas qualitativas, quantitativas e reflexões relevantes em quatro dimensões principais: visão e estratégia, governança e gestão, social e ambiental. Ou seja, sabe aquele famoso ESG (ou ASG em português, que significa aspectos ambientais, sociais e de governança) que invadiram as comunicações atuais? Então, esta sigla sempre foi mais usada no mercado financeiro para avaliação de riscos para investidores, mas, guardadas as proporções, este "filtro" também pode ser aplicado a pequenos negócios com a ferramenta do Instituto Ethos, que também possui diversos guias temáticos como por exemplo os Guias de Integridade ou Inclusão da Pessoa com Deficiência. A ferramenta permite à empresa comparar seu "diagnóstico" a outros respondentes, realizar um planejamento e gerar um relatório de sustentabilidade. O instituto oferece pacotes com outros serviços adicionais para empresas que desejam ampliar seu engajamento ou influenciar seu segmento e sua rede.
  2. B Impact Assessment (BIA) - ferramenta de análise de impacto do B Lab, ligado ao movimento por empresas de benefícios do Sistema B Brasil. Esta também é uma ferramenta gratuita que integra os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, inclusive é hoje a ferramenta para empresas que aderem ao Pacto Global (iniciativa voluntária que fornece diretrizes para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania, por meio de lideranças corporativas comprometidas e inovadoras). O BIA é uma ferramenta mais robusta, possui cerca de 200 questões e também trabalha com dimensões: governança, funcionários, comunidade, meio ambiente, modelos de impacto (modelo de negócio) e questionário de divulgação (comunicação e reporte). No caso do BIA, as respostas somam pontos e levam a perguntas específicas para cada caso (porte da empresa, segmento de atuação e modelo de negócio), ao se atingir 80 pontos a empresa pode se encaminhar para o processo de verificação e entrevistas que fazem parte da certificação, cobrada de acordo com o porte (faturamento) da empresa. Esta ferramenta também permite uma comparação com um universo de milhares de empresas respondentes e não necessariamente certificadas, além de ser uma ferramenta de planejamento, gestão e elaboração de relatório.

Portanto, existem formas gratuitas e acessíveis de iniciar sua jornada estratégica em sustentabilidade. De acordo com com Jaqulyn Ottman - As novas regras do marketing verde: estratégias, ferramentas e inspiração para o branding sustentável (2012) há mais de 400 certificações disponíveis, dentre as mais usuais encontramos algumas que podem nortear, por exemplo, a busca por fornecedores:

  • Programa ABVTEX - surgiu para combater o trabalho análogo ao escravo e infantil, atua na consolidação de boas práticas na cadeia de fornecimento em favor de um ambiente sustentável e de compliance (conformidade) em condições dignas de trabalho. É preciso entrar no programa ABVTEX para obter os benefícios e os diversos serviços oferecidos para cada empresa. Já possuem 3.802 empresas certificadas, presentes em 635 municípios de 18 estados, ou seja, mais de 335.575 mil trabalhadores diretos beneficiados com todos os direitos garantidos e boas condições de trabalho e 38.342 auditorias realizadas desde 2010.
  • ETIQUETA CERTA - parceiros da ABVTEX - oferecem um sistema que automatiza o desenvolvimento de etiquetas conforme as normas vigentes. 
  • ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) - cria padrões verificáveis por meio das diversas modalidades de ISO - na cadeia de moda contempla por exemplo zippers e fibras e tem como objetivo promover a confecção de peças com conforto, resistência, qualidade e durabilidade. As ISO atestam os processos produtivos e é necessário contratar uma auditoria de certificação. São exemplos: ISO 14001 - estabelece diretrizes sobre a área de gestão ambiental, gerenciando riscos ambientais; ISO 26000 - assegura responsabilidade social nos quesitos relacionados a transparência, comportamento ético, legalidade, normas internacionais e direitos humanos. 
  • Programa Selo Origem Sustentável - lançado em 2013, em uma parceria entre a Assintecal e a Abicalçados, passou por uma reestruturação para adequações ao mercado atual, atesta compromissos com o desenvolvimento sustentável. 
  • CERTIFICADO DE EMPRESA B - mensura os impactos de longo prazo do seu negócio no planeta, fazendo o se comprometer de forma institucional com tais resultados, visando construir empresas que trabalhem com transparência e com respeito às diferenças. 
  • FAIRTRADE - preza pelo comércio justo, um dos pilares da sustentabilidade buscando assim a garantia de direitos para produtores e trabalhadores.
  • BUREAU VERITAS - audita pontos de venda para a indústria e certifica equipamentos e indica padrões de qualidade na produção e comercialização com respeito ao meio ambiente por parte das empresas de todo o mundo. Fornecem capacitações técnicas e especialização HSE (Saúde, Segurança e meio ambiente). 
  • GOTS - GLOBAL ORGANIC TEXTILE STANDARD - padrão para tecidos orgânicos de reconhecimento internacional, garante o status orgânico de tecidos das colheitas e contempla processo, fabricação, rotulação, embalagem e comercialização. Além disso, tem programas de certificação personalizados. 
  • IBD - Instituto Brasil Orgânico - uma das maiores certificadoras de produtos orgânicos, com selos reconhecidos no mercado europeu e americano e certificado de sustentabilidade. Atende à produção têxtil com certificados, selos e auditorias. 
  • ECOCERT - certficadora ligada o IBD, possui selos e auditorias no quesito de comércio justo e responsabilidade socioambiental atestando produtos orgânicos e sustentáveis, como Comércio Justo (FFL), Cosméticos (COSMOS), Papel e Madeira(FSC), Agricultura sustentável (GLOBAL GAP & Rainforest Alliance), entre outros. 
  • BCI - BETTER COTTON INICIATIVE - programa de maior incidência para empresas da cadeia produtiva de moda, do varejo, emite licenças de comercialização aos produtores associados. No site da ABRAPA (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) se encontram os links para o licenciamento do BCI e do certificado do ABR (Algodão Brasileiro Responsável) bem como os respectivos passo a passo. 
  • FSC - FOREST STEWARDSHIP COUNCIL - certificado para regulação da produção de madeira e produtos originários da floresta. Reconhece a produção responsável de produtos florestais, permitindo que os consumidores e as empresas tomem decisões conscientes de compra, beneficiando as pessoas e o ambiente, bem como agregando valor aos negócios. 
  • C2C - CRADLE TO CRADLE - para produtos têxteis, verifica desde a saúde dos materiais, circularidade dos produtos, energia limpa, condições justas de trabalho, ciclo da água até a diversidade. Trata-se de uma certificação robusta oriunda de conceitos da economia circular, veja maiores detalhes neste artigo completo da Ideia Circular, representante da C2C no Brasil.
  • PETA - PEOPLE FOR THE ETHICAL TREATMENT OF ANIMALS - maior organização de direitos dos animais do mundo, tem na certificação uma maneira de promover, conscientizar e apoiar práticas, serviços e produtos livres de crueldade animal e 100% veganos.
  • EU RECICLO - empresa certificada B cujo selo promove a compensação ambiental de embalagens, certifica a realização de logística reversa e cumpre com a política nacional de resíduos sólidos para que o lixo gerado tenha a destinação ambientalmente correta.

Ser validado por certificações não é inovação, mas um compromisso com a transparência nos processos, condição e premissa de empresas e marcas de valor, que se preocupam com o meio ambiente e com a sustentabilidade social e querem ser bem aceitas no mercado. Mas há muitas referências nas quais as pequenas empresas podem se inspirar até que possam adquirir certificações e auditorias por terceira parte, destaco o lançamento recente do Índice de Transparência da Moda, trabalho capitaneado pelo movimento Fashion Revolution Brasil e que traz os aspectos mais relevantes da comunicação relacionada a sustentabilidade, uma ótima inspiração para quem está começando a jornada da sustentabilidade pela boas práticas socio ambientais, de governança e comunicação.

Referências relevantes para a elaboração deste artigo:

Artigo de 08.mai.2019 do Blog Roupartilhei;

Relatório de Inteligência do SEBRAE set-out/2019;

Painel da 4ª Edição do Brasil Eco Fashion Week sobre Programas e Certificações para o Setor Têxtil.

Assista a live, consulte o guia do Instagram e comente, assim poderei elaborar novos conteúdos úteis e continuar levando a "palavra" da sustentabilidade a mais cantos do mercado.

Esta provocação rendeu uma lista de interessados em mentorias coletivas para micro e pequenas empresas, caso este seja o seu caso, por favor preencha seus dados neste link.

Até mais!

 

 

 

Rede Sustentaoquê?
Daniela Delfini de Campos
Daniela Delfini de Campos Seguir

Entusiasta pela vida no planeta Terra. Conheci os conceitos de sustentabilidade em 2005, uma grande organização que virou case em Harvard. A partir de 2014 atuei como consultora e pesquisadora e crio conteúdo desde 2016 no Instagram @sustentaoque.

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