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CAFÉ EM CÁPSULA: POR QUÊ?

CAFÉ EM CÁPSULA: POR QUÊ?

 

    Com as discussões (e não necessariamente as práticas) sobre sustentabilidade cada vez mais em alta nos últimos anos, o mercado do café em cápsula tem colocado luz nas possibilidades de logística reversa e reciclagem. Fiz pesquisas nos sites oficiais de algumas marcas e, se o que está escrito ali é verdade, me parece que a coisa (pelo menos na teoria) está avançando mesmo: incentivo às cooperativas de reciclagem, parceria com startup de reciclagem, pontos de coletas “espalhados pelo Brasil”, projeto piloto de parceria com os Correios para que se promova a logística reversa (retornar as cápsulas à empresa produtora/centros de reciclagem) e até cápsulas feitas de alumínio reciclado (ou seja, alumínio proveniente do processo de reciclagem – e não de matéria-prima virgem). Plástico e alumínio são os principais componentes delas; o plástico já sabemos que tem um ciclo finito de reciclagem e vira microplástico no final de sua vida (ou seja, para ele, a reciclagem não é uma solução) e o alumínio, esse sim, tem potencial de se reciclar infinitamente.

     Tem uma coisa que me chama bastante a atenção em relação à cadeia produtiva do café encapsulado, enquanto engenheira de produção e consumidora final: o que é vendido como praticidade vem, na verdade, carregado de “trabalho extra” para quem produz e para quem consome. Quando tomamos o café via coador de pano ou filtro de papel, cafeteira italiana ou prensa francesa, tudo o que sobra, após o consumo, é o pó (e talvez o filtro de papel). O pó é resíduo orgânico; quando compostado, volta a ser nutriente para a terra e alimenta o ecossistema em questão. E o filtro de papel se composta também. Já quando optamos pelo café encapsulado, ao terminar de tomá-lo, temos como resíduos o pó e ... a cápsula. O pó, resíduo orgânico e compostável; a cápsula talvez seja reciclável. Considerando que ela seja e lembrando que a responsabilidade da gestão de resíduos é compartilhada entre quem produz e quem faz uso deles, é responsabilidade de quem consome fazer o “descarte correto” e é de responsabilidade de quem “coloca a cápsula no mundo” garantir que ela seja recolhida e tenha “o destino correto” (neste caso, a reciclagem). De forma resumida, no pós-consumo:
     - o (a) consumidor (a) final precisa armazenar suas cápsulas e se deslocar para levá-las até o ponto de coleta (caso exista algum em sua cidade de origem) ou até os Correios (segundo o que oferece o projeto piloto de logística reversa de uma das marcas);
    - a empresa precisa criar e investir em novos processos para trazer de volta essas cápsulas, arcando com todos os custos envolvidos (incluindo o financiamento da reciclagem e da compostagem do pó).
     
    Graças ao efeito manada das marcas (aquele mix de imediatismo + falta de questionamento + "não posso ficar para trás"), a ideia de “encapsular bebidas” se alastrou não só entre elas, como também para diferentes produtos. Chás, achocolatados, caipirinhas: tudo isso pode ser preparado a partir de uma cápsula.

     Eu fico pensando o que nos leva a aderir a esse modo de preparar bebida. Ter o George Clooney nos apresentando a esse hábito ajuda - e muito -, imagino eu. Afinal de contas, ele representa parte do referencial que temos de “pessoa de sucesso”: homem, branco, nasceu em um “país de primeiro mundo”, empresário (além de ator), próspero financeiramente. Tem também a parte da vida real, aquela em que estamos sempre buscando recursos que nos façam ganhar tempo (ainda que a gente costume deixar de fora desse cálculo quanto tempo é necessário trabalharmos para podermos financiar essas “praticidades” e, então, “ganharmos” tempo). E arrisco dizer que tem o “fator novidade”, o lance de automatizar, de ter máquinas dentro de casa (afinal de contas, apertar um botão e ter o produto final em mãos alguns segundos depois é algo com potencial de fazer brilhar nossos olhos – pelo menos no começo).

     Acontece que, quando a gente disse “sim!” para o café em cápsula, a gente deu às boas-vindas também a uma cadeia produtiva que, ao contrário do moço da propaganda, é bem pouco charmosa: extração de alumínio (oi, mineração!), uso de plástico, uso de tintas sintéticas para colorir essas cápsulas e a criação da necessidade da reciclagem (que, para acontecer, requer água, combustível, maquinário, transporte, energia).
    Independente de preferências pessoais, podemos concordar que cafés, chás, achocolatados e caipirinhas podem ser preparados sem o uso de uma cápsula e uma máquina que a “processa”, certo? Pois esse é meu ponto: no campo da sustentabilidade, antes de se falar em reciclagem e até mesmo de logística reversa, a gente precisa discutir a necessidade do produto em si, do serviço oferecido, da criação de etapas extras de produção. O objetivo final (ingerir a bebida) é atingido sem a cápsula - então por que ela foi criada?

     Tem três pontos principais que me incomodam nesta história toda:
   - as empresas que oferecem os produtos encapsulados apresentam o incentivo às cooperativas de reciclagem, parceria com startup de reciclagem, pontos de coletas e parceria com os Correios como “vejam vocês como somos sustentáveis!” quando, na verdade, todas essas ações não precisariam acontecer (uma vez que o produto em questão – a cápsula – é algo dispensável);
    - foi-se o tempo em que a gente produzia alguma coisa sem considerar os recursos naturais envolvidos no processo. Tenho pra mim que as empresas que ainda insistem em “fingir que não é com elas” e seguem atuando como se esses recursos fossem infinitos e eternamente renováveis, estão apenas fazendo isso: fingindo. Enquanto o (a) consumidor (a) não questiona, não exige, não se impõe ou não se opõe (ou, em outras palavras, enquanto tem quem as financie), “não tem porque” elas terem o “trabalho” de reformular seus produtos e processos. (Repare que elas parecem não se incomodar com o “trabalho” e custos envolvidos em adicionar etapas para produzir um componente dispensável. Vai entender, né?);
    - talvez não as (os) leitoras (es) desta newsletter, mas aqui vou trazer uma abordagem que muita gente torce a cara quando ouve: não tem como nós sermos saudáveis se nós estamos maltratando a Terra a todo momento. E isso, pra minha cabeça que ama racionalizar as coisas, é uma questão de lógica e de sobrevivência. A gente quer mesmo minerar bauxita, extrair petróleo e usar tintas sintéticas para produzir ... cápsulas de bebida? Imagine o melhor cenário de logística reversa e reciclagem (100% das cápsulas produzidas sendo encaminhadas para a reciclagem): a gente quer mesmo destinar recursos (fitas adesivas e caixas dos Correios, caminhões, maquinário, água, energia) para reciclar algo que não precisa existir?

     “Este texto é para fazer sentir-se mal quem consome café (ou qualquer bebida) em cápsula?” Definitivamente, não. Quero deixar claro que minha intenção é que a gente questione e traga consciência para nossa maneira atual de consumir. Meu objetivo é fazer com que nosso senso crítico aumente e que a gente tenha cada vez mais entendimento da dimensão das nossas escolhas nesta economia pautada pelo consumo. Meu “cutucão” é individual, mas com a intenção de que ele cresça e floresça de forma coletiva. Afinal de contas, as mudanças que precisamos fazer são estruturais. Sentimento individualizado de culpa é o que menos precisamos. A ideia é que você entenda toda a lógica por trás dessa opção de produção e consumo e que possa aplicar essa mesma análise em outros itens presentes em seu dia-a-dia. Cobre transparência das empresas. Priorize o simples. E consuma lembrando que cada atitude, produto, serviço ou hábito tem um alcance para muito além da atitude, produto, serviço ou hábito em si (para o bem ou para o mal).

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Referências:

 

Rede Sustentaoquê?
Nativa Villalta
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Educadora em sustentabilidade para pessoas e negócios, engenheira de produção e fundadora da Pratique Consciente. Atua na criação de consciência e de práticas que fomentam e constroem um sistema produtivo regenerativo e uma economia circular.

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