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Análise resumida do setor de microcrédito no Brasil

Análise resumida do setor de microcrédito no Brasil

A importância do impacto social e ambiental é algo que me fascina. Após ter feito MBA nos Estados Unidos na Cornell University e ter estudado bastante o tema de impacto, resolvi ir mais além e, atualmente, não só estou desenvolvendo uma consultoria focada em ajudar empreendedores de impacto, mas também tenho planos de desenvolver fundos e aceleradoras voltadas a impacto, um projeto futuro que terá a colaboração da Idea Lunchbox, aceleradora e internacionalizadora de startups localizada nos Estados Unidos, e que é fundada por brasileiros.

Por conta disso, estou participando do curso do Instituto de Cidadania Empresarial para aceleradoras e incubadoras com a temática: "Como Apoiar Negócios de Impacto Social e Ambiental" e ando refletindo bastante sobre o tema.

Recentemente me interessei pelo mercado de microcrédito e finanças para inclusão, um dos maiores e mais importantes mercados de impacto e resolvi fazer uma análise resumida sobre o setor no Brasil.

Mercado

Contexto mundial

A população mundial hoje é de 7,8 bilhões de pessoas, no qual adultos representam cerca de 5 bilhões (65%). Destes adultos, estima-se que cerca de 2,5 bilhões não têm uma conta em banco. Quando se analisa a diferença entre países em desenvolvimento com países desenvolvidos, a disparidade é grande. 60% da população de países em desenvolvimento não tem uma conta bancária, ao passo que esse número é de apenas 11% em países desenvolvidos.

Contexto Brasil

No Brasil, estima-se que cerca de 40% da população não tem uma conta bancária, o que representa 84 milhões de pessoas. Há iniciativas como a Associação Brasileira das Operadoras de Microcrédito e Microfinanças – ABCRED, que visa fomentar pesquisas e iniciativas no setor, e o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo e Orientado – Crescer MPO, lançado em 2011 e operado pelos bancos públicos federais (BB, BASA, Caixa e BNB/Crediamigo), que objetiva elevar o padrão de vida de milhões de empreendedores, estimulando a geração de emprego e o desenvolvimento de novos negócios, via empreendedorismo e “bancarização”, entre outros meios. O primeiro banco comercial grande a oferecer uma operação de microcrédito foi o Banco Real, adquirido pelo Banco Santander.

 

Quais os pontos principais da análise de microcrédito

Contexto

As instituições financeiras e bancárias realizam análise de crédito para avaliar se o cliente (pessoa física ou jurídica), merece o crédito solicitado. Porém, quando se analisa o microcrédito, não existe um algoritmo/análise pronto para determinar se o banco deve confiar no empréstimo dado ao cliente e qual seria a precificação. No geral, há três pontos principais nesse processo de análise de crédito:

  1. Identificar o cliente que merece crédito
  2. Mensurar qual o preço justo do crédito (exemplo: taxa de juros e outros custos)
  3. Dar o crédito e acompanhar o cliente durante o período de concessão do crédito

Os pontos 1 e 2 são importantes para dimensionar o tamanho do crédito que o cliente merece e que, de acordo com sua capacidade financeira, pode devolver ao banco no futuro.

A instituição financeira então deve fazer um modelo para equacionar esta análise de crédito. Quando o banco oferece um produto novo, há uma curva de aprendizagem da própria empresa e do produto oferecido para entender quais os melhores parâmetros a definir para conceder o crédito necessário aos clientes.

Na prática, quanto mais pobre a pessoa ou empreendedor for, maior será o custo do empréstimo dado pela instituição financeira.

Um benefício do microcrédito, em comparação a empréstimos maiores, é que o banco não exige garantias.

Oportunidade 1

No Brasil, o custo total anual do empréstimo para microcrédito chega a ser de 100 a 400% do total, ou seja, ao tomar uma dívida que perdura por mais de 1 ano, o empreendedor pode estar pagando ao banco de 1 a 4 vezes mais quando pagar todo o empréstimo. Uma instituição financeira que conseguir focar apenas em microcrédito para aumentar sua escala e diminuir os custos de operação, poderá conceder créditos com um custo bem menor e mais vantajoso ao empreendedor. Com isso, a quantidade de clientes irá aumentar e, com um trabalho próximo ao cliente, consegue-se assegurar  que o cliente terá condições de cumprir com o compromisso de pagar o empréstimo.

Oportunidade 2

Aliar o processo de crédito com a educação financeira do empreendedor. Por mais que o último aspecto não seja função da instituição financeira, esta poderia se voluntariar a ensinar o empreendedor a gerir o seu dinheiro. Com isso, o empreendedor aumenta a capacidade de gestão e expansão do seu negócio e o banco teria mais oportunidades para conceder crédito a esse cliente, aumentando assim a oferta de crédito a clientes considerados bons pagadores, além da menor probabilidade de inadimplência.

 

Tecnologias, iniciativas e startups

Tecnologias

As tecnologias presentes hoje podem resolver diversos problemas nesse setor, com destaque a três tecnologias e iniciativas:

  • Blockchain e criptomoedas: hoje é possível realizar transações globais utilizando Blockchain com um custo muito inferior ao realizado por meio de instituições bancárias tradicionais.
  • Smartphones: 65% da população mundial tem pelo menos um smartphone. Isso facilita a inclusão e o oferecimento de soluções para quem usa smartphone.
  • Levantamento e análise de dados: muitas empresas oferecem aplicativo para realizar transações financeiras sem custo. O objetivo muitas vezes é adquirir uma base de clientes sólida e coletar dados para fornecer soluções específicas para determinados usuários do aplicativo. Além disso, os dados coletados pela empresa são um ativo muito importante para adquirir conhecimento necessário para conseguir parcerias importantes de empresas que estão interessadas em oferecer soluções para o público atendido pelo aplicativo.

Iniciativas e startups

No Brasil, verifica-se algumas iniciativas e startups interessantes:

  • Airfox: startup dos Estados Unidos fundada por brasileiros que foi recentemente adquirida pela Via Varejo. Eles oferecem soluções de microcrédito para as classes C, D, E, e tem um banco digital Banqi, que oferece soluções também para essas classes. A Airfox utiliza o conceito de blockchain para realizar diversos procedimentos que facilitam a sua atuação a nível global.
  • Fundo Periferia Empreendedora: conectam empreendedores que precisam de capital para investir em seus negócios e pessoas que estão dispostas a investir para promover impacto positivo no mundo. Não são um banco, são facilitadores por meio de investimentos. O Fundo Periferia Empreendedora foi criado para fomentar o microcrédito produtivo nas regiões mais afastadas dos grandes centros. Financiado por doações de institutos, empresas e pessoas, o fundo visa beneficiar micro e nano empreendedores mais prejudicados com a crise causada pelo COVID-19. O recurso doado será revertido aos empreendedores por meio de créditos de até R$3.000, com 120 dias para começar a pagar, parcelamento em até 20x e política de juros zero. Os empreendedores que pagarem em dia seus empréstimos, não precisarão pagar a última parcela. Por isso juros zero. Aqueles que atrasarem parcelas pagarão 1% de juros ao mês. O pagamento dos empréstimos será revertido para que as organizações realizadoras invistam em mais projetos relacionados ao fortalecimento de empreendedores periféricos.

Outro ponto a considerar, principalmente relacionado à competitividade do mercado, é que as big techs (Google, Facebook, Amazon, Apple) têm aumentado sua influência sobre a população não atendida pelas instituições financeiras (65% da população mundial tem um smartphone e utilizam as tecnologias dessas empresas). Elas oferecem serviços para as pessoas não bancarizadas, e a penetração dessas empresas no mercado se torna fácil já que muitas dessas pessoas utilizam as plataformas dessas empresas. Com base nessa ameaça potencial ao mercado nacional, o Banco Central brasileiro chegou a atuar banindo uma dessas iniciativas, como a tecnologia de pagamento oferecida pelo WhatsApp (que é do Facebook).

Conclusão

Portanto, nota-se que há um potencial imenso não só de receita de mercado, mas também de impacto no mercado. Enquanto há iniciativas, fundos e aceleradoras que visam fomentar o empreendedorismo e atender a população sem recursos, startups e big techs também vêm um potencial a mais de penetração de mercado para gerar receita para suas empresas e ao mesmo tempo trazer eficiência e impacto no mercado.

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